quinta-feira, 10 de junho de 2010

O Nelson



Durante algum tempo escrevi para o site quero cultura em duas colunas na janela queroliteratura. Escrevia Poesias e Crônicas. Minhas crônicas são sobre o cotidiano seja com humor ou não. Esta é a segunda que estou postando na mesma linha. Sinto que o mundo está cinza e cada vez mais sem humor. Existe um excesso de pudor e o politicamente correto tomou conta das coisas e vem deixando o mundo cada vez mais com cara de beata de igreja.




 O Nelson


É manhã, o dia mal amanheceu e olho para o relógio ainda são 06:00hs, já estou sem sono algum, mas com uma preguiça absurda e desistimulante de recomeçar a vida. Apesar dos meus problemas aumentarem consideravelmente essa falta de estímulo, sei que sempre fui assim desde a minha infância. Lembro quando ainda garoto o despertador tocava e em seguida recebia um beijo da minha santa mãe, pois já era hora da escola, eu estava acordado antes do primeiro som do despertador e já habitava dentro do meu ser uma vontade incomum de não sair da posição que meu corpo cansado de não fazer nada repousava. Levantei-me, tirei o pijama e saí de casa em silêncio para não acordar minha esposa e meu cunhado.
            Meu cunhado marcou minha vida literalmente, de fato ou qualquer outra expressão que venha designar “muito pra caramba”. Conheci este indivíduo a exatos 39 anos, oito meses, 27 dias e 14 horas. Exatamente 15 dias após conhecer Silvia da Costa Pereira Gonzalez que se tornaria dois anos depois minha adorável esposa. Digo adorável, pois depois da minha já citada santa mãezinha não pairou sobre este planeta mulher mais sensacional. Quando entrei no apartamento de Silvia fui recebido pelos seus pais. A velha me deu um caloroso abraço, daqueles que você recebe de umas tias que pouco vê, mas fingem umas saudades absurdas quando lhe encontram. O velho iniciou um repertório de piadas sem graça que se repetiriam até dez anos atrás, quando Deus concluiria que a missão do meu sogro terminara. A missão do meu sogro nesta encarnação só pode ter sido a de purificar a alma de todos que o cercaram, pois bastava trinta segundos com ele para você pagar uns nove pecados pelo menos. Enfim o saudoso patriarca da família Gonzalez foi embora deixando o mundo um pouco mais puro e muito mais aliviado.
            Eram dezesseis horas daquele dia e logo os pais de Silvia me ofereceram uma xícara de café tão quente que chegara a queimar meus lábios, língua e todo resto da boca. Os sofás eram simples, o apartamento pequeno, mas ambos eram muito confortáveis e chegou a bater aquela falsa impressão que teria sido recebido com muito carinho. Milésimos de segundo após a falsa sensação surgiu um animal enorme que mais parecia um urso esquizofrênico pulando na minha direção. A criatura nefasta e retardada cheirava mal e derramou todo café quente entre meu umbigo e minhas pernas garantindo assim a virgindade de Silvia por mais algumas semanas. Logo atrás veio o Nelsinho, o cunhado, jurando que tinha soltado o cachorro por acidente e me pedindo desculpas. Algo me dizia que aquilo era mais que uma família, era a quadrilha Gonzalez com mascote e tudo.
            Nelson cresceu com os pais lhe tratando como um bebê, dando a ele tudo que queria. Meus sogros deixavam meu cunhado dar ordens dentro de casa, apesar de nunca ter comprado uma caixa de fósforos para ajudar. Mal tenho tempo de falar na fofoqueira da minha cunhada, pois no filme da minha vida meu cunhado é infelizmente personagem principal. Se resolvesse ir a um bar, assim que a cerveja fosse posta na mesa parecia assombração: o Nelson estava ao meu lado. Organizava-se um jantar romântico com minha esposa, justamente na hora em que a mesa estivesse pronta, batiam na porta era o Nelson dizendo que chegara em boa hora. É que o desgraçado tinha ficado amigo do rapaz da portaria, chamava-o de conterrâneo sem ao menos ter pisado na terra natal do meu porteiro. E quando ele baixava de conselheiro? Era uma mistura de Pai de Santo com “Freud de beira de estrada”! Aproximava-se da minha mulher, dizendo-a que merecia um marido melhor e que por ele, jamais teria deixado Silvia casar comigo. Diz aos meus filhos que sou pão duro e na adolescência deles, bastava proibir algo que ele dizia que eu não sabia educar meus próprios filhos. O pior é que na minha frente ele falava que era meu melhor amigo. Perseguia-me tanto que se fosse nos dias de hoje, eu acharia que apesar de não ter um centavo ele tinha dado um jeito de me vigiar com câmeras vinte e quatro horas por dia. Como naqueles programas que transformam idiotas em celebridades.
            Existiu um final de semana nesses 39 anos, oito meses, 27 dias, 14 horas e agora 16 minutos que julguei ter sido minha redenção. Aconteceu há 16 anos atrás quando minha sogra já meio doente pediu aos filhos e ao marido que fossem com ela até Aparecida do Norte pagar uma promessa que ela estava temerosa de falecer antes de cumprir. A velha acreditava que existia um SPC ou SERASA dos santos e que se não pagasse a promessa ficaria barrada no paraíso. Viajaram sexta-feira no final da tarde e fiz questão de comprar as cinco passagens. Acompanhei a entrada de cada um no ônibus e acenei para todos na janela, fiz questão de dar um tchauzinho para o meu cunhado que já começava a se entreter com uma jovem de uns dezessete anos que provavelmente lhe dará um fora nos primeiros quilômetros de viajem.
            Assim que cheguei em casa coloquei a roupa nova, o perfume importado e fui em direção a uma noitada com um amigo solteirão que só nos falamos quando quero chutar o pau da barraca. Ele em dez minutos de papo me atualizou sobre os tipos de mulheres que freqüentavam a noite e em quinze estávamos com quatro deusas em nossa mesa. Só poderia agradecer a Deus por ter dado um jeito dos Gonzalez irem de encontro com sua mãe. Agora, eu que teria de ir para Aparecida do Norte pagar uma promessa. Era um sonho, eu e meu amigo com quatro mulheres lindíssimas! Ouço uma cadeira se arrastar e... Era a quinta deusa pedindo para sentar na nossa mesa. Todo o barzinho com inveja e ouço outra cadeira se arrastar e... Era... Meu cunhado! Como pode? Como me descobrira em uma cidade tão grande? E o pior é que eu vi ele entrar no ônibus, acenei, será um sósia? Fiquei em estado de choque por uns trinta segundos e antes que eu falasse, ele já foi se explicando: "Resolvi descer do ônibus para lhe fazer companhia" disse na maior. Julguei mal a menina de dezessete anos, ela era mais perspicaz e adiantou o fora nos primeiros metros. Ele ficou sem graça e deu um jeito de voltar e consequentemente acabar com a minha noite. Começou a iniciar um repertório de piadas horríveis. Creio que na divisão genética o rapaz ficou com os genes humorísticos do pai. E aos poucos as garotas foram se afastando e aos muitos minha vida se aproximando. Meu amigo foi embora e acabei ficando sozinho com ele para pagar a conta, pois o meu querido cunhado Nelson não tem dinheiro nem para o chiclete de hortelã. No domingo uma tragédia ainda mais grave, minha sogra passara mal depois de pagar a promessa e ao chegar em casa fui tentar salvá-la. Muito triste! Seu sofrimento durou dois dias apenas e após passar duas noites com ela no hospital fez questão de me chamar. Queria pedir desculpas se algum dia me fez algum mal, me abraçou e disse suas últimas palavras:



"Cuide do Nelsinho, por favor!”.








10 comentários:

Amanda Bruna disse...

kkk ninguém merece o Nelson...até parece um Agostinho Carrara da vida!

Thiago Nogueira disse...

Não acredito! Existe mesmo um Nelsinho? Que horror!

Rodrigo Braga disse...

Valeu a visita Amanda. Existem vários Nelsinhos por aí! Que Deus nos livre Thiago!

Flávio Morgado disse...

Muito bom. Ri! O que já é complicado de se fazer nos dias de hoje: rir. O politicamente correto matou o vernáculo e o humor.
Quanto ao Nelson, acho que todos temos um. Já dizia Chico Anysio: "Toda família tem o chato, o inconveniente e o mau caráter. Se em sua família ninguém causa esse estranhamento, possivelmente você é esse parente."


F.M.

Rodrigo Braga disse...

Muito Boa Flávio!!!

Manu disse...

Rodrigo!
Tirando o elogio, que agradeço, tenho de concordar com o conteúdo do seu comentário. Pelo menos aqui em Portugal são poucos os novos autores que escrevem sonetos. Sendo certo que ainda existe quem os faça de forma sublime, a tendência da criação poética tem passado por outras formas e conceitos muito centrados na metaforização excessiva e por vezes inteligivel; sinais dos tempos?!!
Obrigado pela visita e pelo comentário.
Abraço luso

Anônimo disse...

coitada dele nossa que triste

Anônimo disse...

ghgghg

Anônimo disse...

oi

Anônimo disse...

gente
vbvbb