sexta-feira, 9 de julho de 2010

Guardar

Vou finalizando meu livro e deixando um presente maravilhoso. Ela é a poesia título de um livro que é fundamental para mim. Por que escrever; publicar; postar em blogs ou gravar uma canção? Antonio Cícero estudou Filosofia na UFRJ; posteriormente, graduou-se na Universidade de Londres e pós-graduou-se nos Estados Unidos. Passou a lecionar Filosofia e Lógica, em universidades do Rio de Janeiro. Muito conhecido por ter diversas poesias musicadas. Seu trabalho poético funciona como complemento ao trabalho filosófico. Escritor de uma sensibilidade ímpar seu último livro "Finalidades sem fim" que estou acabando de ler, através de vários ensaios parece promover um encontro entre sua Filosofia e Poesia. Por tudo isso esse grande autor conteporâneo é fundamental para mim.

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


Antônio Cícero 


10 comentários:

Flávio Morgado disse...

Cícero entraria neste meu rol de recém-descobertos. Embora seja um poeta maravilhoso, e passe até por uma poesia canônica, por uma linguagem simples e até tenha sido musicado, Antônio Cícero é daqueles sujeitos que prefere assistir sua peça da coxia. Tímido e muito discreto, este é seu único livro de poemas, embora tenha contribuído significativamente para nossa Filosofia. Pra mim, é o exemplo máximo do que um dia escrevi numa crônica, e ouvi da boca de um porteiro: "Falar só quando se tem algo a dizer." E a prova de que ser tímido pode ser uma introspecção bastante reflexiva e produtiva, vejo neste poema lindo e sintético sobre nosso ofício, e em um poema que indico aos outros amigos, acho lindo, chama-se "Simbiose".
Muito bom!

F.M.

Ribeiro Pedreira disse...

guardar uma coisa é mantê-la presente nos olhos.

Amanda Bruna disse...

Guardar com o fim de vigiar, defender, proteger e preservar aquilo que é importante e precioso.

belo post!

Luciana P. disse...

Muito bom o texto poético. Guardamos tantas coisas e nem sei pra quê. Algumas deveriam ser descartadas com a mesma velocidade que chegaram, mas, humanos e complexos que somos, falamos, engavetamos, primamos, protegemos... É a vida, um amontoado de perguntas com poucas respostas.

Muito bom o seu blog. Parabéns!

Zélia Guardiano disse...

Excelente,Rodrigo!
Muito interessante!
Adorei!
Enorme abraço, amigo!!!

Batom e poesias disse...

Sempre fui fã das letras de Antonio Cícero em parceria com Marina, mas não conhecia outros trabalhos dele. Que lindo esse poem!
De guardar bem a vista, para todo mundo ler.

E esse seu livro? Sai quando?
bjcas
Rossana

Rodrigo Braga disse...

Fico feliz pelo comentário Flávio.

Rodrigo Braga disse...

Sem dúvida Ribeiro, guardar é não perder de vista ou de memória.

Rodrigo Braga disse...

Amanda e luciana obrigado pelas visitas. Sobretudo a você luciana que comenta pela primeira vez. Guardar tem realmente um sentido diferente como bem descreveu Antonio Cícero em seu poema.

Rodrigo Braga disse...

Zélia e Rossana!!! Duas visitas de dois blogs que adoro!!! Meu livro sai esse ano ainda. Ele está entrando nos arremates finais.

Um grande beijo a todos que visitaram essa postagem!

Antonio Cícero merece!